A recandidatura de Mário Soares à Presidência da República é um erro que vai custar esta eleição à esquerda. Não tanto pela idade do candidato, ou pelo facto de se candidatar ao terceiro mandato, mas porque não há razões políticas para avançar, porque não houve uma vaga de fundo na Sociedade Portuguesa que o tivesse chamado a esta luta e porque não é consensual no seio do Partido Socialista. Ao contrário de alguns informados comentadores aqui da blogosfera não vou votar Mário Soares. Não tanto pelo seu passado de queima de bandeiras (para o qual não serve o argumento da simbologia de repulsa pelo Estado vigente à altura, porque quem queima uma bandeira não ataca o Governo de uma Nação, mas a Nação em si) ou de brejeira má educação (ainda a célebre frase atirada ao “Sô polícia”), mas porque dele nos ficarão sempre estas imagens, que o fazem perder credibilidade perante uma imagem de competência e de sentido de Estado da outra candidatura, a de Cavaco Silva. E confesso que não me lembro da "sangrenta repressão estudantil" contrariada pelo, então, Presidente Mário Soares, que o Filipe Moura alude como ponto de referência do seu mandato.
Mas, nem eu vou votar Mário Soares, nem votarão Soares outros Socialistas, mesmo alguns daqueles que fazem parte da Comissão Política do Partido. E tenho as minhas reservas acerca da intenção de voto do próprio José Sócrates que se viu compelido a aceitar a candidatura deste candidato. E é o Primeiro-Ministro que mais vai sair prejudicado desta derrota, porque não soube impor a sua escolha e se deixou levar pela circunstância. Não havendo razões políticas e não sendo a escolha natural do partido, porque se candidata Mário Soares? Pelo poder e pela perpetuação do mesmo. Porque se julga um dos donos da Democracia, da República nas palavras de Manuel Alegre. Mas se estas duas condições não se verificam, só haveria uma razão para esta candidatura, um apelo forte e inequívoco dos cidadãos. Não houve, penso mesmo que haverá o contrário, penso mesmo que esta candidatura cria nas pessoas o sentimento de que os políticos se usam do Estado para atingir objectivos pessoais, mais ou menos obscuros.
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