O centro do Furacão Katrina, visto de cima.

Impressiona ver a dificuldade com que os Estados Unidos estão a lidar com os seus concidadãos pobres de Nova Orleães. Impressiona ver o abandono a que foram votados e os esforços tardios de os ajudar. E impressiona ver, sobretudo, que o primeiro esforço para resolver a situação tenha sido o envio de tropas para repor a ordem a qualquer custo, atirando a matar se necessário fosse, desprezando por completo as necessidades mais primárias dos excluídos do sistema e protegendo o bem mais precioso para aquele Estado, o direito de propriedade.
A previsão da catástrofe parece ter servido apenas aos cidadãos que tomaram as providências necessárias e fugiram (os que puderam) das zonas de crise. Toda a Administração e Serviços de Protecção Civil menosprezaram os conselhos que deram. Só assim se compreende que três cidades tenham sido evacuadas com antecedência e o socorro às vítimas só tenha começado a ser efectivo três dias depois da passagem do furacão. Como é que é possível que num Estado que tem o melhor sistema Logístico do mundo, que consegue colocar tropas no terreno, em qualquer parte do mundo, em 48 horas, se demore tanto tempo a socorrer os seus concidadãos pobres no próprio país? Não pode haver outra explicação que não seja menosprezo, ainda que não consciente, pela vida. Há um estigma que nunca abandonará esta Administração Bush e que a marcará como racista. E isto, num país com problemas tão graves de integração da comunidade negra, vai causar danos ainda não possíveis de entender. Não tardarão os tumultos raciais e o Katrina matará muito depois de ser apenas uma memória. O Governador do Mississipi, Haley Barbour, declarou que o número de vítimas pode ascender à dezena de milhar e que há zonas onde ainda não puderam chegar. E as imagens aéreas mostram gente nos telhados das casas, sinalizando a sua presença como podem, à espera de auxílio vai para cinco dias. E numa situação destas, a primeira medida tomada pelas autoridades foi o de repor a ordem. Atirar a matar e usar de toda a brutalidade que a lei permita, foram as palavras daquele mesmo Governador. É claro que se organizaram grupos que pilharam, violaram e mataram quando a cidade se viu abandonada de ordem. É claro que é fundamental repor a ordem para que a vida volte o mais rapidamente possível à normalidade. O que já não é claro é que esta medida não tenha sido acompanhada, logo de início, por uma acção em escala de resgate e salvamento. O Presidente George Bush já veio admitir que os Serviços de Protecção Civil falharam e que se farão todos os esforços para minimizar os danos. Não é suficiente, nunca o será. Perante isto algo tem que mudar, desde logo a partir do próprio governo da nação. Como última nota deixo uma imagem. Uma mulher tentava forçar a entrada numa Farmácia quando um repórter a interceptou. A mulher confessou que pretendia assaltar a Farmácia, para tirar insulina para o marido diabético.
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