O Salú era um cão ranhoso. Não havia nele traço de pedigree, era rafeiro até às unhas negras, e tinha pêlo seco e manchado onde o castanho assumia tonalidades repugnantes. Não tinha amo nem casa e vagueava pela aldeia como uma alma perdida, escorraçado pelos putos e pelos pais. Já se tinha pensado em terminar-lhe a existência, mas para tanto era preciso pôr-lhe as mãos em cima e a repulsa sentida em consenso unânime nunca permitira semelhante caçada. Era um desgraçado que, para comer, revolvia todos os caixotes e sacos de lixo largados na rua, mal apertados e cheios de moscas. Até estas se afastavam quando chegava o Salú, elas, a quem nem a merda repugna. E eram tantas as carraças e outros parasitas que, para que pudesse comer, tinham que lhe fugir da boca. Mais valia mantê-lo vivo que procurar outra morada.

Não se lhe conheciam familiares ou amigos. Terá sido abandonado, ainda novo, por um caçador que por ali matou e nunca outro semelhante se lhe tinha abeirado. Fugiam, rabo entre as pernas, não porque fosse reles ou grande, mas tão só porque enojava à vista. E na miséria da sua existência já há muito que o pensamento o abandonara.

Um dia, viu a recém chegada à aldeia e embeiçou-se. Tentou uma aproximação à cadela mas esta fugira, aterrada. Esperou-a, escondido, e quando esta se lhe chegou, apareceu-lhe. A pobre gelou no pânico e caiu por terra, já sem vontade ou querer. O Salú cercou-a, esperou que as carraças lhe subissem da barriga para as costas e montou-a. A cadela ganiu e calou-se e teve que aguentar, sem alma, que o animal se despegasse.

Nunca mais a viu. Diz-se na aldeia que se atirou para a frente de um carro quando percebera que estava prenhe. O Salú deixou-se arrastar para a escuridão, mudou de morada para uma anilha do esgoto e abdicou de comer como forma de atiçar as carraças. Na sua imensa cobardia não conseguia acabar-se e esperou… Pouco tempo depois as carraças impacientaram-se com a falta de alimento e, em menos tempo que tempo nenhum, deixaram-no carcaça, sem pele, só osso.

Não houve vivalma que lhe sentisse a falta.